segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

urucum na cara e a barca do acaso no mar das linguagens 2 - o diálogo com o mundo de hoje, dez anos depois.

São 2:57 da madruga. Insônia.
Nunca fui um cara de ter insônia, sempre dormi bem e tranquilo.
Resolvi escrever um pouco para ver se o sono vem.

Ha dez anos atrás nascia o grupo Urucum na Cara. Era um entusiasmo muito grande que só vendo. Queríamos abrir nossas vozes pela revolução e o retorno à África. Nos não só acreditávamos nisso como também era a onda do momento. Éramos todos filhos de operários ou camponeses e queríamos nos libertar. Estudar música era um sonho distante prum bando de jovens pobres que tinha como principal atividade do dia o trabalho nas fábricas ou comércio. Onde é que gente pobre pode estudar música no Brasil? Mesmo assim estávamos dispostos a enfrentar essa realidade para sermos músicos e através da música gritar! gritar! gritar!

Retorno à África? Sim. Naquela época a cidade estava cheia de músicos quase todos negros e pardos. Até os músicos brancos acabavam por se transformar em negros também. Nós, os "urucumnautas", estávamos titanizados pelos sons que vinham da periferia da cidade, tizumbiados pelos sons dos tambores, tambolelizados pelos sons do nordeste e do sertão mineiro. E em todo esse universo sonoro ouvíamos nas entrelinhas musicais a luta de classes gritando e a nossa ancestralidade cantava da pele de cores misturadas. Tava tudo lá: No entoar de vozes dos congadeiros morava a revolução. Na batida samba-rap do morro é que estavam as armas e nos tambores africanos a nossa esperança de um mundo melhor.

Porém nesta barca eu tenho tentado pescar mas o mar não está pra peixe. Não há mais músicos negros e pardos. O que houve com a negritude? Foi toda baleada ou trancada em presídios? África é um bom tema a ser abordado, mas hoje tem sido abordada de maneira romântica e com ar bucólico, pois eu-lírico já não é negro pobre. Vinícius se aclamou o "branco mais preto do
Brasil", todos conhecem a canção em que Vinícius canta "Salve Xangô meu rei, senhor! Salve meu orixá! São SETE cores, sua cor, SETE dias para a gente amar". Coitado! Ah se ele soubesse que sete é o número de Ogum e que o mesmo não é muito simpático com Xangô; número sagrado de Xangô é doze e o sete é proibido nos seus ritos. Mas isso não é problema, se a classe média branca e os universitários gostam da música já basta para Xangô adotar o número sete como predileto e ter Ogum como seu melhor amigo!

A batida samba-funk é coisa do passado, foi-se a época em que a classe média branca se interessava pela cultura do morro e tizumbiava a fazer oficinas de tambor e colocar tererê nos cabelos. Essa coisa de tambor é muito "tilelê" pra atual juventude que frequenta a praça da liberdade e a zona sul da cidade. A atual geração é mais sincera com sua falta de identidade e resolveu assumi -la, não está muito interessada em preencher suas lacunas étnico-culturais com a cultura dos negros e do morro... Pra que se na internet e eu posso preencher com coisas que não passam pra fora da minha janela?

O maior problema que os músicos da canção popular enfrentam hoje é o de apresentar um bom poema sobre as flores, sobre o sol, sobre o mar. Agora a moda são acordes bem elaborados e é até pecado tocar o mesmo acorde na mesma música mais de uma vez. E isso não é questão de virtuosismo não, é uma mera exigêcia do mercado, ou uma simples questão ideológica pela qual até se fazem abaixo-assinados e manifestos contrastantes com um repertório onde nenhuma música se dá ao trabalho de incomodar, a não ser por algumas dissonâncias engenhosamente encaixadas. Mas só incomoda quem está incomodado e, aliás, com o que se icomodar? o Lula é presidente, estamos no auge da democracia e o Brasil é o país da Copa do Mundo e das Olimpíadas! Que otimismo! Que beleza!


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